terça-feira, 13 de julho de 2010

Retratos do Brasil


Estamos no encerramento de um grandioso evento que é a Copa do Mundo de Futebol, capaz de unir num só lugar povos distintos em busca de festejar e ajudar a economia, por que não, de um país assolado por séculos pelo tráfico de pessoas, pelo descaso, corrupção, ditadura, exploração do capital estrangeiro, segregação racial (apartheid) que é a África do Sul. Frutos de todas essas mazelas sociais são colhidos até hoje.
No entanto, possuímos uma mídia no Brasil, principalmente a televisionada que chega à maioria das residências do país, unida aos “grandes” políticos que têm noção de como um esporte de massa, como o futebol, pode ao mesmo tempo entreter e desviar de assuntos tão sérios quanto, ou até maiores que a Copa do Mundo.
Enquanto boa parte dos jornais relatava os feitos e desfeitos futebolísticos, o Senado e a Câmara de Deputados no Brasil votavam importantes decisões para o nosso futuro.
Primeiro com a ANISTIA TOTAL aos crimes cometidos durante a ditadura militar no Brasil, onde os documentos secretos desse período, que não tinham previsão de serem abertos, para que então torturadores fossem presos e condenados. Dessa forma, essa lei de anistia prevê que os crimes de tortura sejam esquecidos.
É de se esperar, num país em que de acordo com as pesquisas de intenção de voto, os candidatos que estão à frente sejam o ex-governador do estado de São Paulo, o senhor José Serra e a ex-ministra da Casa Civil Dilma Roussef.
Serra, com posicionamentos fascistas ditatoriais em seu mandato, conseguiu sucatear mais ainda o ensino público, onde chegou a afirmar durante uma paralisação de professores por melhores salários e condições de trabalho, que estes são vagabundos.
Dilma, que lutou contra a ditadura militar, em entrevista a Revista Carta Capital (nº 599 pág. 26-33), ao ser interrogada sobre a nova Lei de Anistia, disse que é à favor da legalidade, e se o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, na sua atual posição não tem condições de se confrontar com o STF.
Um desmerece e condena a atividade política de professores sendo que o mesmo foi um dos defensores da greve por melhores condições de vida enquanto era estudante. A outra foi perseguida durante um período de ditadura no país, chegou ao poder junto com toda a cúpula petista com um pensamento contrário a tudo que beneficiasse quem oprime e hoje defende outro pensamento.
Claro, somos livres para mudarmos de pensamento político e social quando for mais conveniente, o problema é quando essa conveniência choca-se com o motivo pelo qual se chegou ao poder, usando dos movimentos populares para isso e depois agindo da mesma forma como aqueles que um dia se lutou contra, bem como nos mostra o livro “A revolução dos bichos” de George Orwell.
Segundo, ontem (06 de julho de 2010), foi votado na Câmara de Deputados a nova Lei Ambiental, onde para se ter uma idéia, uma das regalias conquistadas foi a de que todas as terras desmatadas até 2008 de forma ilegal (encostas de morro e matas ciliares) não seria considerado crime, e agora esses “não-criminosos” receberiam os títulos de posse legal dessas terras, como forma de regularizarem sua situação.
Durante o governo de Washington Luís, ex-presidente do Brasil, criou-se uma lei em 1921 que ficou conhecida como jubileu do grileiro, todo aquele que houvesse desmatado florestas e se apropriado de terras devolutas (terras públicas) de forma completamente ilegal, receberia a posse dessas terras.
A mídia e o governo com essas leis dizem que avança em seu desenvolvimento. Só se for desenvolvimento financeiro para alguns, pois sabemos que a grande apropriação territorial, o que é pior, de terras públicas, por grandes proprietários, muitas vezes por processo de grilagem, tende a cada vez mais mecanizar o campo, afastando as populações locais que pouco se beneficiam desse desenvolvimento para os centros urbanos despreparados para receber este grande contingente, que ocupa em sua maioria as periferias e locais de risco, aumentando os bolsões de pobreza provenientes de uma população marginalizada.
Enquanto o país curtia os lances da copa, sendo atraídos por saudosos “bem amigos da rede globo”, os governantes votavam leis de suma importância para o país, comprovando novamente alguns retratos do Brasil, onde quem tortura e quem desmata um dia consegue sair ileso, afirmando o que dizia Bezerra da Silva, que somos o país da impunidade.